Mais de dez anos após se tornar obrigatória no Brasil, a pré-escola ainda não alcança todas as crianças. Um levantamento recente aponta que 16% dos municípios brasileiros têm menos de 90% das crianças de 4 e 5 anos matriculadas na educação infantil, evidenciando que a universalização ainda está distante da realidade.
Os dados, baseados em análises do portal QEdu e indicadores elaborados pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), mostram que cerca de 329 mil crianças estão fora da pré-escola. Ao todo, 876 municípios apresentam cobertura abaixo do nível considerado adequado.
As desigualdades regionais são marcantes. Enquanto regiões como Sul e Sudeste apresentam índices mais próximos da universalização, o Norte e parte do Nordeste concentram os piores resultados. No Norte, por exemplo, 29% dos municípios não atingem o percentual mínimo de atendimento, quase o triplo do registrado na região Sul.
O problema não se limita a cidades pequenas. Mesmo em capitais brasileiras, ainda há diferenças significativas nos índices de matrícula, com algumas já universalizadas e outras com cobertura inferior a 80%. Fatores como renda e localização também influenciam o acesso: crianças que vivem em áreas rurais e em famílias de baixa renda enfrentam mais dificuldades para frequentar a escola.
Se o cenário da pré-escola já é desafiador, a situação das creches é ainda mais preocupante. O levantamento mostra que 81% dos municípios brasileiros atendem menos de 60% das crianças de 0 a 3 anos, percentual abaixo da meta prevista no novo Plano Nacional de Educação (PNE) para o período de 2026 a 2036. Na região Norte, esse índice chega a 94%.
Diferentemente da pré-escola, a creche não é obrigatória, o que contribui para os baixos índices de atendimento. Ainda assim, o novo PNE estabelece como meta garantir vaga para todas as famílias que desejarem matricular seus filhos, o que exigirá ampliação significativa da oferta em todo o país.
Além do acesso, a qualidade da educação infantil também preocupa. Apenas 17% das escolas públicas possuem infraestrutura considerada adequada. Em muitas unidades, faltam condições básicas como rede de esgoto, coleta regular de lixo e abastecimento de água.
A estrutura pedagógica também é limitada. A maioria das escolas não conta com biblioteca ou sala de leitura, e espaços essenciais para o desenvolvimento infantil ainda são escassos: apenas 45% das unidades possuem parque infantil e 36% têm áreas verdes.
O cenário evidencia que os desafios da educação infantil no Brasil vão além da matrícula. Garantir acesso com qualidade ainda é um objetivo distante, especialmente nas regiões mais vulneráveis, onde as desigualdades começam já nos primeiros anos de vida.
Fonte: G1
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