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Cuiabá acumula mais de 4,6 mil pedidos de exames para investigar câncer de mama

Dados da Secretaria Municipal de Saúde apontam milhares de solicitações pendentes entre janeiro e outubro de 2026. Paciente precisou vender equipamentos e parte do próprio negócio para pagar exames na rede particular.

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Escrito por Samantha Quinzani

30 OUT 2026 - 11H08

Cuiabá contabilizou 4.674 solicitações pendentes de exames para investigação de alterações nas mamas entre janeiro e outubro de 2026, conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde. A lista inclui pedidos de mamografias, ultrassonografias e outros procedimentos utilizados para identificar possíveis casos de câncer de mama.

Desse total, 4.640 solicitações são de moradores da capital, enquanto outras 34 correspondem a pacientes de municípios do interior encaminhados por meio da regulação municipal.

Na rede estadual de saúde, a Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT) informou que 510 pessoas aguardavam exames relacionados à investigação da doença. Desse número, 506 são residentes no estado.

Como medida para diminuir a demanda reprimida, a SES-MT citou o programa Fila Zero, que prevê, entre outras ações, a contratação de 2.531 mamografias destinadas à investigação e ao tratamento oncológico, além da ampliação da oferta de serviços especializados. A pasta, porém, não apresentou uma previsão para a realização dessas contratações.

Paciente precisou vender o próprio negócio

Entre as pessoas que enfrentaram dificuldades para conseguir os exames está a autônoma Raiany Júlia Nascimento, de 30 anos. Ela contou que descobriu um nódulo na mama direita enquanto tomava banho, em 2023, quando tinha apenas 27 anos e não imaginava que poderia receber um diagnóstico de câncer.

Sem informações sobre a alteração, Raiany decidiu pagar por uma ultrassonografia particular. Em 22 de janeiro de 2024, recebeu a confirmação de câncer de mama triplo negativo, diagnóstico que exigiu a realização de outros procedimentos.

Segundo a paciente, cada biópsia custava aproximadamente R$ 800. Para conseguir pagar pelos exames, ela vendeu máquinas, equipamentos e quase todos os materiais de sua papelaria personalizada, negócio que representava sua principal fonte de renda. Também promoveu campanhas para arrecadar dinheiro.

“Eu não estava vendendo apenas objetos. Estava abrindo mão do meu sustento para tentar salvar minha vida”, relatou.

Naquele período, o marido estava desempregado e a família ainda precisava garantir o sustento dos filhos. Até a filha do casal tentou contribuir, vendendo revistas na escola.

Diante da demora para conseguir atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Raiany recorreu à rede particular para realizar os exames, onde conseguiu fazer a maior parte dos procedimentos necessários.

Já boa parte do tratamento foi realizada pelo SUS, incluindo quimioterapia, cirurgia, radioterapia, medicação oral e reconstrução mamária com próteses.

“Sempre faço questão de dizer que o SUS é fundamental e que eu só consegui chegar ao tratamento porque existe o SUS”, afirmou.

Atualmente em fase de remissão, Raiany ainda convive com consequências físicas e emocionais provocadas pelo tratamento, entre elas menopausa precoce, alterações hormonais, cansaço e limitações físicas.

Ela também destacou a dificuldade de conseguir acompanhamento psicológico após o período mais intenso do tratamento.

“Mesmo depois das etapas mais intensas, a recuperação continua e a gente ainda precisa desse suporte. A gente precisa de acompanhamento psicológico, apoio emocional e cuidados com as sequelas”, disse.

Demora no diagnóstico pode comprometer tratamento

O médico mastologista Luciano Florisbelo destacou que a realização dos exames em tempo adequado é essencial para investigar possíveis casos de câncer de mama. Segundo ele, o atendimento também precisa incluir consultas com especialistas, biópsias e encaminhamento para o tratamento, quando necessário.

“Quando a gente fala de câncer, o tempo importa. Uma mulher com uma alteração suspeita não pode demorar meses para realizar um exame e, depois, esperar mais meses para conseguir uma consulta com um especialista e iniciar o tratamento. Precisamos de uma rede mais organizada, maior oferta de exames e melhor distribuição dos serviços”, afirmou.

O especialista também apontou que a extensão territorial de Mato Grosso representa um obstáculo para o acesso à saúde. Em alguns municípios, a ausência de mamógrafos obriga as pacientes a percorrerem longas distâncias para realizar os procedimentos.

Para o médico, o diagnóstico precoce precisa estar disponível para todas as mulheres, independentemente da localização ou da situação financeira.

“O diagnóstico precoce não pode ser apenas uma recomendação médica. A gente precisa de uma oportunidade real para todas as mulheres, independentemente de onde vivem ou da condição financeira”, destacou.

Luciano explicou ainda que nem toda alteração identificada nas mamas significa câncer. Mesmo assim, sinais suspeitos devem ser avaliados por um profissional de saúde. A investigação pode envolver exames de imagem e, dependendo dos resultados, a realização de biópsia.

De acordo com o mastologista, identificar a doença nas fases iniciais pode aumentar as possibilidades de cura e reduzir a necessidade de tratamentos mais agressivos. A confirmação do diagnóstico e a escolha da abordagem terapêutica dependem da avaliação médica e dos resultados dos exames.

Fonte: G1MT

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Por Samantha Quinzani, em Saúde

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