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Desperdício de alimentos no Brasil contrasta com a fome de milhões de pessoas

Da produção no campo ao consumo nas residências, falhas na cadeia alimentar geram perdas bilionárias, impactos ambientais e dificultam o acesso à alimentação para famílias em situação de vulnerabilidade.

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Escrito por Samantha Quinzani

05 JUN 2026 - 16H41

Enquanto milhões de brasileiros enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação adequada, o desperdício de alimentos segue como um dos grandes desafios do país. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que cerca de 1 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente em todo o mundo. No Brasil, o problema ocorre em todas as etapas da cadeia produtiva, desde a lavoura até as mesas dos consumidores.

Especialistas fazem uma distinção importante entre perda e desperdício de alimentos. As perdas acontecem antes que os produtos cheguem ao consumidor, principalmente durante a colheita, pós-colheita, armazenamento e transporte. Já o desperdício ocorre nas etapas finais da cadeia, como no varejo, restaurantes e residências.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 7 milhões de pessoas passam fome no país, enquanto 18,9 milhões de famílias convivem com algum grau de insegurança alimentar. Especialistas alertam que a redução das perdas e do desperdício poderia contribuir para ampliar o acesso aos alimentos e até diminuir os preços de produtos básicos.

De acordo com Daniela Teston, diretora de Relações Corporativas do WWF-Brasil, parte das perdas já é incorporada ao valor final dos produtos comercializados. Dessa forma, o consumidor acaba pagando pelo desperdício. Para ela, a diminuição dessas perdas poderia favorecer principalmente a população em situação de vulnerabilidade social.

Além dos impactos sociais, o desperdício também gera consequências ambientais. Quando descartados, os alimentos produzem gases de efeito estufa, como o metano, e liberam chorume, substância capaz de contaminar o solo e os lençóis freáticos. Há ainda os prejuízos econômicos: levantamento do Banco Mundial estima que aproximadamente US$ 1 trilhão em alimentos seja desperdiçado todos os anos.

Perdas começam ainda no campo

No início da cadeia produtiva, as perdas podem ocorrer por diversos fatores. Entre eles estão a falta de treinamento técnico dos agricultores, problemas durante a colheita e pós-colheita, manejo inadequado das culturas e infraestrutura insuficiente para armazenar e transportar os alimentos.

Segundo Gustavo Porpino, pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios, alimentos altamente perecíveis, como alface, morango e banana, exigem planejamento prévio para comercialização. Caso contrário, podem se deteriorar rapidamente.

Outros fatores que contribuem para as perdas incluem eventos climáticos extremos, pragas, doenças, falta de tecnologia, exigências estéticas do mercado e dificuldades logísticas. O armazenamento inadequado, com controle insuficiente de temperatura e umidade, também favorece a deterioração dos produtos. Já no transporte, estradas precárias, infraestrutura deficiente e veículos inadequados podem comprometer a qualidade dos alimentos antes mesmo de chegarem aos centros de distribuição.

Excesso de oferta e descarte no varejo

Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) indicam que supermercados e restaurantes respondem por cerca de 427 milhões de toneladas de alimentos desperdiçados.

No varejo, o descarte ocorre por diversos motivos, como produtos próximos da data de validade, danos estéticos, falhas em equipamentos de refrigeração e excesso de oferta. Em muitos casos, alimentos ainda próprios para consumo acabam sendo descartados por não atenderem aos padrões visuais exigidos pelos consumidores.

Segundo Porpino, outro fator é o sistema de venda consignada, no qual parte do prejuízo acaba sendo transferida aos produtores rurais quando os produtos não são comercializados.

Restaurantes e residências concentram grande parte do desperdício

Nos restaurantes, o desperdício costuma estar relacionado ao preparo excessivo de refeições e ao descarte de alimentos que não podem mais ser reutilizados ou doados.

Dentro das residências ocorre a maior parcela das perdas. Em 2022, os lares foram responsáveis pelo descarte de 631 milhões de toneladas de alimentos. Entre os principais motivos estão as sobras de refeições, alimentos esquecidos na geladeira, compras acima da necessidade real da família e o descarte intencional de produtos ainda consumíveis.

Aspectos culturais também influenciam o problema. O hábito de comprar em excesso, motivado pela busca por fartura ou pelo costume de manter estoques domésticos, faz com que muitos alimentos acabem estragando antes do consumo.

Diante desse cenário, especialistas defendem investimentos em tecnologia, melhorias na logística, ampliação de programas de doação e campanhas de conscientização para reduzir as perdas e o desperdício. A expectativa é que essas medidas contribuam não apenas para diminuir prejuízos econômicos e ambientais, mas também para ampliar o acesso à alimentação de qualidade para milhões de brasileiros.

Fonte: G1

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