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Homens são maioria entre vítimas de suicídio em MT; número de mortes cresce em 2026

Estado registrou 234 casos entre janeiro e julho deste ano, sendo 180 homens e 54 mulheres; psicólogo explica fatores que podem estar relacionados à diferença

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Escrito por Samantha Quinzani

16 SET 2026 - 11H52

Mato Grosso registrou 234 mortes por suicídio entre janeiro e julho de 2026, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Desse total, 180 vítimas eram homens e 54 eram mulheres. A média corresponde a aproximadamente uma morte por dia no estado.

O número de homens vítimas de suicídio foi 233,3% maior que o registrado entre mulheres no período. Em números absolutos, foram 126 mortes a mais entre os homens. Isso significa que, para cada mulher vítima, cerca de 3,3 homens morreram por suicídio.

O tema ganha ainda mais destaque durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a prevenção ao suicídio e à valorização da vida. Durante o período, campanhas e ações de orientação são realizadas em diferentes setores da sociedade.

Segundo o psicólogo Rodrigo Brito, doutor em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e especialista em Gestão Pública pelo Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), a diferença entre homens e mulheres não significa, necessariamente, que os homens enfrentem mais sofrimento psicológico.

Por que os homens são maioria entre as vítimas?

De acordo com o especialista, um dos fatores que podem ajudar a explicar essa diferença está relacionado à maneira como muitos homens são ensinados a lidar com situações de sofrimento.

A cobrança para que sejam fortes, independentes e capazes de resolver os próprios problemas pode dificultar a demonstração de vulnerabilidade e a procura por ajuda.

“Existe uma construção social da masculinidade que, em muitos contextos, associa o homem à força, à autonomia e à ideia de que ele precisa resolver seus problemas sozinho. Isso pode dificultar a expressão da vulnerabilidade e a busca por ajuda”, explicou Rodrigo.

O psicólogo destaca que o problema não está na masculinidade em si, mas na rigidez de determinados padrões que fazem com que sentimentos como medo, tristeza ou fragilidade sejam encarados como sinais de fraqueza.

Frases como “homem não chora” e “seja forte”, por exemplo, fazem parte de um processo de socialização que pode levar alguns homens a enxergar o pedido de ajuda como uma espécie de fracasso.

“Isso tudo significa que não basta dizer ‘os homens precisam procurar ajuda’, pois também precisamos questionar as condições sociais e culturais que fazem com que pedir ajuda seja tão difícil para alguns deles”, afirmou.

Segundo Rodrigo, esse comportamento também pode contribuir para que alguns homens procurem menos os serviços de saúde mental ou cheguem ao atendimento quando o sofrimento já está em um estágio mais grave.

Quais são os sinais de alerta?

O sofrimento psicológico nem sempre se manifesta por meio de tristeza. Mudanças no comportamento e na rotina também podem indicar que uma pessoa está enfrentando dificuldades e precisa de apoio.

Entre os sinais que merecem atenção estão:

  •  irritabilidade;
  •  isolamento;
  •  aumento do consumo de álcool;
  •  comportamentos de risco;
  •  afastamento de familiares e amigos;
  •  abandono de atividades que antes proporcionavam prazer;
  •  mudanças perceptíveis na rotina.

O psicólogo ressalta que o suicídio é um fenômeno multifatorial e pode estar relacionado a diferentes situações de vulnerabilidade. Problemas no trabalho, desemprego, dificuldades financeiras, perdas, isolamento social, uso problemático de álcool e outras substâncias e diferentes formas de sofrimento psicológico podem contribuir para o agravamento do quadro.

A aposentadoria também pode representar um período de maior vulnerabilidade para alguns homens, principalmente quando envolve redução da renda, perda de vínculos sociais ou mudanças em funções que antes estavam relacionadas à identidade da pessoa.

Entre os idosos, o avanço da idade também está associado a maiores taxas de suicídio. Nessa fase da vida, situações como perdas, isolamento social, redução da autonomia e mudanças nos vínculos podem contribuir para o sofrimento.

Como prevenir?

Para Rodrigo, a prevenção precisa começar antes que uma situação chegue ao estágio de crise. Entre as medidas apontadas pelo especialista estão a ampliação do acesso aos serviços de saúde mental e a criação de espaços onde os homens possam falar sobre seus sentimentos e dificuldades.

Segundo ele, as ações também precisam estar presentes nos locais onde essa população está, como unidades de saúde, ambientes de trabalho, escolas, universidades e comunidades.

“Precisamos criar espaços em que o homem possa falar sobre seu sofrimento antes que ele se transforme em uma situação de crise”, orientou.

O especialista também defende que familiares e profissionais sejam preparados para identificar mudanças de comportamento e sinais de sofrimento.

Além disso, ele aponta a importância do fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), da qualificação dos profissionais e da criação de estratégias de cuidado que levem em consideração as particularidades da população masculina.

Mortes aumentaram em 2026

Os números registrados em Mato Grosso mostram períodos de aumento, estabilidade e redução nos últimos anos.

Entre 2022 e 2023, o número de mortes passou de 285 para 340, um aumento de 19,3%. Em 2024, foram registrados 339 casos, queda de 0,3% em relação ao ano anterior. Já em 2025, o estado contabilizou 322 mortes, uma redução de 5%.

Em 2026, porém, os números voltaram a subir. Entre janeiro e julho, foram registradas 234 mortes, 19,4% a mais do que no mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 196 casos.

Na comparação com os primeiros sete meses de 2022, quando houve 158 mortes, o aumento chega a 48,1%.

Janeiro de 2026 concentrou o maior número de registros entre os meses de janeiro dos últimos cinco anos, com 53 mortes.

O cenário reforça a necessidade de atenção aos serviços de saúde mental no estado, especialmente na identificação precoce de situações de sofrimento e na ampliação do acesso ao atendimento.

Cuiabá lidera número de registros

Os dados do Sinesp também mostram diferenças na distribuição das mortes entre os municípios de Mato Grosso.

Entre janeiro e julho de 2026, quatro cidades registraram mais de 10 mortes. Cuiabá aparece com o maior número, somando 39 casos. Rondonópolis, Várzea Grande e Sorriso também aparecem entre os municípios com mais registros, com números que variam de 12 a 19 mortes.

Os dados municipais podem auxiliar na identificação das regiões que precisam de maior atenção e no planejamento de ações de prevenção e atendimento em saúde mental.

Atendimento em Sorriso

Em Sorriso, a Prefeitura informou que o atendimento em saúde mental é realizado por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

Entre os serviços disponíveis estão o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II) Nova Vida | Maria Zélia da Silva Cosmos, que oferece atendimento psicológico, psiquiátrico e oficinas terapêuticas; o CAPSi/Integrar, voltado para crianças e adolescentes; e ações desenvolvidas pela equipe E-Multi, como o projeto “Entre Fios e Memórias”.

Durante o Setembro Amarelo, a Secretaria Municipal de Saúde também realiza rodas de conversa sobre saúde mental em unidades de saúde e instituições de ensino.

Várzea Grande

A Secretaria Municipal de Assistência Social de Várzea Grande informou que desenvolve ações em conjunto com as Secretarias Municipais de Saúde e Educação.

As iniciativas são voltadas à proteção social e à garantia de direitos, com o objetivo de fortalecer vínculos familiares e comunitários, prevenir situações de vulnerabilidade e ampliar o acesso da população aos serviços e políticas públicas.

Rondonópolis

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, Rondonópolis registrou 15 mortes por suicídio entre janeiro e julho de 2026. Os dados são da Vigilância Epidemiológica e ainda podem sofrer atualização.

O município informou que vem fortalecendo a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com integração entre unidades de saúde, CAPS, Atenção Primária, UPA e Samu.

As equipes também recebem capacitação para identificar sinais de sofrimento psicológico e situações de risco.

Na segunda-feira (15), foi assinada a ordem de serviço para a construção do CAPS III, que deve ampliar o atendimento a pessoas em sofrimento mental grave e em situações de crise.

A Secretaria Municipal de Saúde ressalta que o suicídio é um fenômeno multifatorial e que os dados são utilizados para orientar ações de prevenção e ampliar o acesso da população ao atendimento.

Onde procurar ajuda

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito, voluntário e sigiloso pelo telefone 188. O serviço é destinado a pessoas que precisam conversar e receber apoio emocional.

Canais de atendimento do CVV:

  •  Telefone: 188, com ligação gratuita de qualquer telefone fixo ou celular no Brasil;
  •  Chat online: disponível pelo site oficial do CVV;
  •  E-mail: apoioemocional@cvv.org.br.

Além do atendimento por telefone e pela internet, a população também pode procurar a rede pública de saúde. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e as Unidades Básicas de Saúde (UBS) oferecem atendimento e acompanhamento de acordo com a necessidade de cada paciente.

Em situações de emergência ou risco imediato, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo telefone 192.

Fonte: G1MT

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